PAPÉIS ORIENTADOS

"A improbabilidade reuniu um grupo de artistas, já que o particular e o singular das decisões racionais e afetivas tornariam esta exposição incerta. Aquilo que efectivamente os une ou coloca em relação, são as palavras que designam a própria exposição. O que por si só afigurar-se-ia simples, torna-se mais complexo se nos deixarmos levar pelas inúmeras suposições e significações hermenêuticas com que nos podemos deparar.

Se por um lado, no imediato, somos levados a pensar num material específico - o papel, na sua condição enquanto suporte e superfície, somos também confrontados com as suas intrínsecas possibilidades de manipulação, obliteração e transformação - o que nos conduz inevitavelmente a diferentes narrativas e nos confronta simultaneamente com múltiplas possibilidades de sentido.

O papel enquanto matéria, tem a história da sua origem imbuída de relações cruzadas, entre o conhecimento e o poder, a comunicação e a poética. Mas a palavra que o denomina e caracteriza, tem na língua portuguesa, tal como no castelhano e no catalão, esse rasto incorporado de tal modo que se apresenta, não como denominação especifica de um material, mas torna-se representação de possibilidades do ser humano no interior das relações no espaço público. A palavra Papel passou a designar nestas línguas, possibilidades funcionais, cargos ou relações de poder no interior de uma comunidade.

Não alheados destas possibilidades, o grupo de artistas - Hugo Oliveira, João Baeta, João Pedro Trindade, Marianne Baillot, Miguel Januário, Nelson Duarte, Rita Senra - apresentam nesta exposição diferentes escolhas e possibilidades pelo que necessitam que olhemos cuidadosamente para cada uma das suas peças, uma vez que apesar de independentes dos seus criadores, a sua existência é a consequência de decisões. O que de modo fértil levanta e coloca diferentes questões estéticas, divididas entre aquilo que é poético ou político, convida-nos a cogitar sobre as variáveis morfologias das margens do espaço sensível no espaço público. Esta contingência em devir, faz depender os juízos das suas condições e modos de análise. Apenas assim e, por isso, as obras poderão comparecer perante o espectador por vezes em pólos aparentemente opostos, o poético ou o político."

João Baeta

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